Todo texto é um recorte: do pensamento, da realidade, de uma fonte de informação, de outros textos. O texto é produto de elaboração intencional, muitas vezes, planejada e, por isso, todo texto carrega consigo as marcas do autor: sua ideologia, seu conhecimento do objeto, sua cultura. Nenhum texto é totalmente “neutro” ou “isento” dessas marcas, embora existam aqueles que delas prescindam por força de seu gênero. Um contrato de aluguel de imóvel ou um formulário de imposto de renda, por exemplo, não trazem marcas evidentes de autoria, embora a ausência dessas marcas seja por si só uma marca. Apesar disso, esses documentos trazem as marcas da cultura em que se inserem através da língua, do formato do texto e do conteúdo abordado.
Embora escrito a partir de regras de domínio social, um texto, de qualquer gênero, tem sempre a possibilidade de “burlar” essas regras e subverter a estrutura canônica prevista para ele na cultura. A literatura tem muitos exemplos de rupturas produzidas por autores que tinham a intenção de, assim, marcar sua posição no universo literário. Entretanto, as regras, para escritores iniciantes, servem de referência para o exercício da produção escrita. De que regras falamos? Das ditadas pelo gênero textual e pelo cânone lingüístico.
Os usuários da língua portuguesa, geralmente reconhecem e distinguem um artigo de uma carta, por exemplo, pois têm contato freqüente com esses textos. Sabem com que propósitos são escritos e lidos. Ter conhecimento do gênero enquanto leitores é diferente daquele necessário quando se é autor.
Para escrever um gênero, o autor necessita conhecê-lo mais profundamente: saber que estruturas são determinantes e predominantes, se há uma ordem na exposição do assunto, se há diversidade nas seqüências textuais, se há peculiaridades quanto ao emprego das palavras (figuras, rimas, aliterações), etc.
Para conhecer um gênero é imprescindível o exercício da leitura – como forma de alimentação e de composição do repertório. Mas também é importante analisar atentamente os textos. Uma das formas mais interessantes de proceder à análise de um gênero textual é escrevê-lo baseando-se em modelos selecionados. Durante esse tipo de produção escrita, o aprendiz se coloca na posição do autor que lhe serve de referência e, ao imitar seus procedimentos, descobre suas características. De outro modo, se o aprendiz for perspicaz durante sua leitura do gênero, poderá abstrair as características do gênero e iniciar sua produção baseado nessa observação.
Escrever seguindo as regras ditadas pelo gênero e pelo cânone lingüístico é, ao menos para os autores aprendizes, uma estratégia a ser utilizada durante a produção de textos.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Prever um leitor para o texto
O ato da escrita é um ato de comunicação que supõe autor e leitor. É preciso que o autor tenha em mente um interlocutor para estabelecer o diálogo. E é exatamente por ter um leitor previsto que muitas decisões do autor são tomadas. É pensando no leitor que o autor determina o gênero, a escolha vocabular, a estrutura sintática dos enunciados, o tamanho e complexidade do texto etc.
Os interlocutores podem se configurar como “eu”, “tu” e “ele” e, como tal, constituem instâncias de abrangência da comunicação. Um texto dirigido a “eu mesmo” e a “tu” se circunscreve no âmbito do discurso privado; o texto dirigido a “ele” circula na esfera do discurso público. Do “eu” e do “tu” estou mais próximo, temos um diálogo mais íntimo, compartilhamos nossas experiências e pensamentos, são representações de leitores reais próximos, com os quais convivo. Com “ele”, compartilho uma língua, uma cultura, e até uma profissão, mas não estabeleço interação pessoal, é um leitor idealizado.
Aqui nos referimos aqui a âmbitos de representação do sujeito leitor. Eu – o leitor sou “eu mesmo”; tu – o leitor é aquele com quem falo e que conheço, com quem compartilho alguma intimidade; ele – o leitor plural, o público.
Os interlocutores podem se configurar como “eu”, “tu” e “ele” e, como tal, constituem instâncias de abrangência da comunicação. Um texto dirigido a “eu mesmo” e a “tu” se circunscreve no âmbito do discurso privado; o texto dirigido a “ele” circula na esfera do discurso público. Do “eu” e do “tu” estou mais próximo, temos um diálogo mais íntimo, compartilhamos nossas experiências e pensamentos, são representações de leitores reais próximos, com os quais convivo. Com “ele”, compartilho uma língua, uma cultura, e até uma profissão, mas não estabeleço interação pessoal, é um leitor idealizado.
Aqui nos referimos aqui a âmbitos de representação do sujeito leitor. Eu – o leitor sou “eu mesmo”; tu – o leitor é aquele com quem falo e que conheço, com quem compartilho alguma intimidade; ele – o leitor plural, o público.